Her Story e Gone Home - Góticos femininos investigativos nos anos 90


Dois jogos que poucas pessoas pensariam em comparar e considerar parecidos. Nos dois, você chega em um ambiente desconhecido e deve analisar tudo o que puder para entender o que aconteceu. Em um, você é uma garota procurando uma pista da localização de sua família; no outro, você está querendo descobrir qual é a ligação entre uma mulher e o assassinato do marido dela. Nos dois, você brinca de xeroque holmes em histórias que se passam nos anos 90, com elementos e ambientações ligadas ao movimento gótico sendo abordados de formas totalmente diferentes.


Em Gone Home, é 1995 e você está na pele de Kaitilin, uma estudante que passou um ano num intercâmbio e está de volta ao lar - se bem que não é lar nenhum, mas o casarão antigo para onde seus pais e sua irmã se mudaram, em uma cidade isolada. Naturalmente, ninguém estava lá para receber Kaitilin. Enquanto a tempestade cai, convenientemente cortando o sinal de todos os telefones, tudo o que resta a fazer é varrer o casarão atrás de um recado, aviso, ou apenas um indício que diga aonde todo mundo foi.

Você pode revistar todas as gavetas, abrir armários, passear por esconderijos, ver os produtos no banheiro, ler trechos de livros e anotações de qualquer um. É tudo muito bem feito, poderia muito bem ser uma casa de verdade - e sair fuçando a casa dos outros sem nenhuma consequência é o tipo de experiência que só um jogo pode trazer! Dependendo da sua geração, você deve ou ficar com altos sentimentos de nostalgia pelos objetos dos anos 80 e 90, ou quase se sentir explorando um mini museu pessoal.

A narrativa ambiental guia o jogador de forma natural, apresentando os personagens e suas trajetórias tranquilamente e com ótimos timings. Arcos inteiros são contados não só pelas coisas que eles escrevem, mas também pelos objetos que possuem, a maneira como guardam tudo, e o que tentam esconder. E acho sempre é interessante lembrar que três desenvolvedores de Gone Home também participaram da produção de Bioshock (os designers Steve Gaynor, Karla Zimonja, e Johnnemann Nordhagen); é um trabalho de muita qualidade. Uma das coisas mais legais de Gone Home, para mim, é quando você percebe que está fuxicando observando uma história de pessoas que poderiam ser seus amigos de infância, colegas de trabalho, ou talvez familiares menos íntimos. Imagino que é bom ter isso em mente, porque infelizmente muita gente se desencantou com o jogo a partir daí. Mas ao contrário dos que dizem que o enredo é “normal” demais, eu só considero uma inversão de expectativas muito bem bolada, quase uma paródia nesse sentido. A história não deixa de ser boa por ser sobre pessoas comuns, enquanto a ambientação e características góticas passa a ser um charme a mais - ainda mais porque ficar andando numa casa enorme, de noite, às vezes sem luz, com uma tempestade gritando lá fora, consegue dar uns calafrios mesmo em um video game.



Enquanto isso, Her Story começa quase como um episódio de CSI interativo e termina… bem assim mesmo. Em 1990 e bolinhas, Hannah Smith ficou viúva. Seu marido foi assassinado, e ela parece ser a principal suspeita. No jogo, seu objetivo é descobrir se foi ela mesmo, ou se foi cúmplice de algo, ou se ela realmente estava fora da cidade, como diz. À sua disposição, estão as gravações dos interrogatórios conduzidos pela polícia. Você passa boa parte do tempo encarando o programa onde os vídeos foram deixados, que é, logicamente (ha), muito antigo. Eles estão totalmente picotados, em pedaços que variam de 5 segundos a 5 minutos, mostrando cada resposta que ela deu (não há acesso às perguntas). Você deve fazer buscas no servidor para guiar a sua investigação: ao procurar uma palavra, o programa disponibiliza todos os vídeos em que ela foi dita. Buscar “eu” não é nada produtivo, mas uma palavra chave pode fazer toda a diferença, jogando uma luz na situação ou tornando-a ainda mais sem noção e instigante.

Boa parte da história se passa dentro da sua própria cabeça, imaginando e reimaginando os acontecimentos de acordo com os relatos de Hannah, pensando no que pesquisar, desconfiando de algo e não podendo confirmar até o momento em que você menos espera, tentando montar o quebra cabeça a qualquer custo.
E esse quebra cabeça, ao contrário de Gone Home, se mostra mais sombrio à medida que é montado. As inspirações no gótico vitoriano são bem claras, com ambientações em casas proibidas, sótãos com quadros cobertos, pessoas escondidas e segredos familiares. Demonstrações de loucura e desejos sexuais reprimidos são temas recorrentes, além de referências aos contos de fadas dos Grimm, com direito até a um espelho “mágico”. E o que antes parecia um conto totalmente focado em um crime, você acaba mais interessado na vida da moça, que e uma das piores mentirosas que você já viu.
Infelizmente, esse é um jogo para se aproveitar apenas uma vez. Claro que, se você for assistir aos vídeos na ordem depois, dá para perceber vários detalhes e subtextos que não conseguiu pegar de primeira, que deixam a história e a personagem ainda mais interessantes - mesma coisa com Gone Home. Mas em Her Story, a jornada das descobertas, de pensar no que ela falaria, de selecionar as melhores palavras, e fazer altas conexões, é de apenas um uso. O quebra cabeça só se monta uma vez. Eu queria muito apreciar uma história de mistério dessa maneira de novo. Mas andei me divertindo muito assistindo as buscas de pessoas jogando pela primeira vez, como se fossem aqueles vídeos de reação ao Casamento Vermelho a plot twists em séries.

Para quem nunca chegou a pegar esses dois títulos, fica aí a minha recomendação, mesmo para quem não tem costume de jogar nada. Ambos estão disponíveis no steam; Gone Home (link) tem um preço bem alto para um jogo que dura duas, três horas no máximo. Mas deixa algumas semanas na wishlist que logo, logo vem uma promoção bacana. Her Story (link) costuma abaixa o preço de vez em quando, e tem na Play Store (link) e App Store (link) também.

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