Desafio literário 2011: A arma escarlate


Renata Ventura conseguiu, de um jeito brilhante, expandir ainda mais o mundo criado por J. K.  Rowling. Nós somos afinal apresentados à bruxaria em nosso país, numa história até pouco fantasiosa.



 “A arma escarlate” realmente me impressionou. Fazia tempo que eu não lia 300 páginas num único dia, quase morrendo de ansiedade para saber como tudo iria terminar. Se bem que não terminou, ainda tem muita coisa para ser explorada nesse mundo. Já estou ansiosa para um segundo volume!

O livro conta a história de Hugo, um menino que vive na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro. Uma vida muito complicada parece virar um sonho quando, já correndo risco de morrer, descobre que é um bruxo. Quem diria que as coisas acabariam se complicando mais ainda...

O protagonista, Hugo, me surpreendeu bastante. Eu ficava muito irritada com as atitudes dele, se achando tão importante, tão injustiçado, algumas vezes até torcendo o nariz para alguém igual a ele! Gente, isso é tão real! Quantas vezes nós mesmos não agimos assim? O defeito do personagem vira uma qualidade do livro, aumentando seu realismo. E ele não é nada parecido com Harry, tem uma personalidade totalmente diferente. É irritado, desconfiado, não pensa muito antes de agir. Quem lê a sinopse e acha que é só uma historinha de Harry Potter no Brasil, leia o livro antes de fazer qualquer comentário.

A história é realmente muito boa. A primeira parte enrola um pouco, pois nós somos apresentados ao mundo bruxo brasileiro que, por mais que muitos se esforcem, é bem diferente daquele que conhecemos na Inglaterra. Já a segunda parte é bem mais esquentada e emocionante. Não falo sobre o que é porque senão pode estragar a leitura dos que querem ler, mas quem diria que aquilo seria o que tinha na caixinha de Pandora? O choque entre o mundo azêmola e o bruxo é muito bem feito. Aquilo tudo que acontecia com as vítimas era horrível e perturbador, eu sentia direitinho a agonia de Hugo. Uma história nova naquele lugar, que aqui acontece todos os dias.

Uma das melhores coisas do livro são as referências a Harry Potter. Algumas são inofensivas, mas outras interferem diretamente na história – não que isso seja um problema, muito pelo contrário. Eu vibrava em cada uma que aparecia! Uma grande homenagem à saga que renovou o mundo literário. As minhas menções favoritas eram aquelas que falavam da própria J. K. Rowling.

‘Há rumores de que uma bruxa de lá [da Europa] estaria tentando lançar um livro sobre nosso mundo para os azêmolas. O Conselho está apavorado.’ Viny riu, se divertindo [...] ‘O Ministério inglês estava correndo contra o tempo, bloqueando uma editora atrás da outra com as mandingas confusórias deles lá, mas a escritora foi mais esperta.’"
A arma escalarte; Página 231

Algo também muito bom do livro são os pixies, um grupo de adolescentes rebeldes da escola.  Os seus integrantes são ótimos, principalmente Capí, um personagem de quem é impossível não gostar; mas eu me identifiquei mais com Viny. Não por sua personalidade (totalmente oposta a minha), mas por causa de seus ideais, que se aproximam bastante dos meus. Principalmente a revolta com o desprezo do brasileiro pelas suas próprias raízes, preferindo sempre copiar o que vem dos países grandes e ignorando sua identidade.

‘ Esse pessoal vive na cidade mais linda do mundo e fica tentando ser europeu. Mente colonizada, tá ligado?’”
A arma escalarte; Página 130

Há também as divagações sobre o sistema educacional, que usa a escola do Korkovado como exemplo mas que funcionam excepcionalmente bem com as azêmolas também. Não importa se é bruxa ou não, estão todas no mesmo país, então terão problemas parecidos.

A arma escalarte; Página 256

A história, como dá para ver, aclama a identidade brasileira. Adoro como a autora, além de criar expressões próprias para coisas que já tinham nome na saga de Rowling, colocou muitos elementos do nosso folclore, fez os personagens não usarem feitiços em latim, mas em línguas indígenas. Ela não encaixa o Brasil no mundo bruxo, fez exatamente o contrário. Sub-Saara, que idéia genial!

Mas é claro que nada no mundo é perfeito, infelizmente. O título não me agradou. É lindo, mas a tal arma não é assim tão presente como parece ser no primeiro momento. Ela é importante? É, mas não tem um papel crucial no enredo. Tem uma boa história, mas que não foi totalmente desenvolvida, assim como a de alguns personagens, que para mim deveriam ter algum tempinho a mais de destaque.

Mas o que realmente me incomodou foi a revisão mal feita. O livro tem alguns erros bobos de português e  uma má organização de parágrafos. Nos diálogos é muito fácil se confundir com quem está falando o quê. Às vezes você percebe que se enganou com as falas um tempão depois.
Dedicatória fofa!

Enfim, eu realmente recomendo o livro. Parabéns a Renata, estreou muito bem no mundo escritor, e espero que a história faça o sucesso que merece. Quem sabe, em alguns anos a Bloombury pode comprar os direitos para publicar o livro na Inglaterra! Acho que estou quase tão empolgada quanto a própria autora...

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