E quem precisa de Sherlock Holmes?

Esse pode ser mais preguiçoso, mais malandro, mais destraído e menos britânico. Muito menos. Tipo, ele nem é. Mas faz o seu trabalho. Na maioria das vezes...bom, o importante é que nenhum caso ficou sem ser solucionado. O nome dele é Mert. Ed Mert – não, péra...

Ah, sim. É Mort. Ed Mort. É o que está escrito na plaqueta – ao menos, quando há uma plaqueta. Às vezes a roubam. O cara é detetive particular, se formou num curso por correspondência e trabalha nessa galeria em Copacabana, numa saleta entre uma doceria um curso de cabeleireiros. Ou seria entre uma pastelaria e uma loja de carimbos? Não sei, esse detalhe sempre muda. O pessoal não gosta daquele lugar, nem a polícia dá jeito no grupo de assaltantes que toma conta dali. O Ed só fica por lá porque mal tem dinheiro para uma fanta uva. 

Ao contrário dos detetives que conhecemos, Ed não tem companhia nenhuma além das 17 baratas e do ratão que alugam a saleta com ele – mas o relacionamento entre eles é tão íntimo que toca o coração de qualquer um. E Ed com certeza desmitifica toda a fantasia detetivesca que Sherlock Holmes montou ao preferir tal vida à rotina, ah-horrível-rotina, das pessoas normais. Digo isso porque o carioca está sempre fazendo a mesma coisa: resolvendo problemas banais de mulheres sexys, que quase sempre envolvem encontrar um marido desaparecido. Pode ter certeza de que ele está com outra. Ou outro, não sei.

Mas esse detalhe entediante não me fez gostar menos de Ed. O seu jeito extremamente desajeitado e suas tão conhecidas (ou não) respostas cínicas foram o suficiente para me levar durante todos os seus contos. Mas provavelmente alguns não gostariam muito – tem que ter em mente que o cara não tem talento nenhum para o ramo, e suas histórias definitivamente não se encaixam no gênero policial. São mesmo para rir, e muito; o próprio Ed é uma piada com os detetives da literatura. Alguns casos são resolvidos em menos de um parágrafo simplesmente porque o conto tem que acabar. Dá para ler um entre uma estação de metrô e outra - todos, em pouco mais de uma hora.

Apesar do tamanho minúsculo do livro, eu aconselho deixá-lo na estante e ler uma história ou outra de vez em quando – como todas as coletâneas de contos deveriam ser lidas, na minha opinião... E aqui o legal é escolher uma totalmente no escuro, porque se for pelo título vai ficar perdido - alguns têm o mesmo nome. Mas deixe o último para ler depois de todos os outros. Não somente é o melhor (o caso é muito mais desenvolvido), como também é o final mesmo, e muito bom. Conan Doyle teria inveja (entendedores entenderão). 

Ah, mas quem liga para ele? Luís também sabe divertir muito bem, não sei como não pensei nele quando estava procurando um livro para rir...

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