Os mangás da minha vida


Houve um tempo em que tinha no meu quarto uma estante só para mangá, e em que juntava cada centavo que ganhava para poder ir em algum evento otaku, acompanhada ou sozinha. Hoje, só restou em minha casa os quadrinhos que eu realmente gosto, espremidos em uma só prateleira.

Hikaru no Go
Entre eles está Hikaru no Go, que eu nem terminei de ler (tenho problemas sérios com coleções que ultrapassam vinte volumes), mas não deixa de ser um dos mais épicos que eu já li. Não há pessoas com poderes mágicos, muito menos monstros para serem derrotados - é uma história sobre um jogo de tabuleiro chamado go, um negócio tão viciante que me deixou muitas madrugadas  jogando com estranhos e lendo outras histórias sobre ele. Mas acho que a desse mangá é mesmo a maior por aí.

O protagonista é Hikaru, um garoto mal-educado que não quer muita coisa da vida e passa a ser perseguido por um espírito que, quando vivo, era profissional nesse jogo. O entusiasmo dele acaba inspirando Hikaru a brincar com essa "coisa de velho", e aos poucos o go vira a maior paixão do menino. E nós o acompanhamos até ele virar adulto, tentando ganhar a vida como jogador profissional, uma escolha que exigia não só muito tempo e energia, mas também passar por cima dos próprios amigos. É uma história realmente inspiradora, e que pode fazer você ter um ataque cardíaco a cada partida.

Death Note
Só li esse mangá por ter o mesmo desenhista de Death Note, que uma das melhores leituras da minha vida. Gosto de dizer que ele marcou o fim da minha inocência, quando comecei a ler histórias menos infantis. Também confundiu bastante a minha cabeça, pois foi a primeira vez em que eu não conseguia escolher um team para torcer. Deveria apoiar Light Yagami, o garoto que decidiu matar todas as pessoas malvadas do planeta? Não seria esse o melhor uso para um caderno da morte? Mas a "boa" intenção (quem leu sabe como o Light queria algo muito mais caro do que simplesmente paz) dele talvez não fosse tão boa assim...

E ainda tinha o fato do rival dele ser o L, um detetive nove mil vezes mais excêntrico do que Sherlock Holmes, tão inteligente que evita investigar fora de casa, contando apenas com a ajuda de um mensageiro. A luta mental entre esses dois era algo tão fascinante que a história chegou a perder muito quando...vocês devem saber o que aconteceu. Se não, é melhor ler - ou assistir o anime - os filmes são bons, mas não é a mesma história. Ao contrário de todo mundo, eu não desgosto da segunda parte, e adoro o final (do mangá) por ser tão realista e, de certa forma, desesperançoso.

Card Captor Sakura
Não posso me esquecer do primeiro quadrinho que me trouxe tanto gosto aos mangás, que também marcou muito a minha vida! Card Captor Sakura! (não é Sakura Card Captors!) Você já deve saber o enredo... garotinha meio tonta mas extremamente fofa liberta, sem querer, umas cartas mágicas e condena o destino do planeta. Meu sonho de infância era ter tal oportunidade, descobrir que tinha poderes mágicos e sair por aí botando fim nas brincadeiras daqueles monstros mimados.

Eu li naquela edição broxante em meio tankobon, uma das primeiras da JBC; já era fissurada no desenho que passava no Cartoon Network, e acabei me desapontando um pouco por ser tão diferente do que via na televisão. Mas ainda assim foi por causa desse que eu comecei a me interessar por mangás, e passei a apreciá-lo muito mais quando reli mais tarde, tanto que decidi comprar a edição de luxo que estão lançando agora. Porém, até hoje, eu ainda prefiro o anime. Dublado em português.

Ainda no shoujo, Ouran Koukou Host Club foi de uma simples indicação da minha melhor amiga para o mangá que eu mais li na vida - sério, cheguei a ler os primeiros volumes umas quatro vezes, no mínimo, cada um, esperando a Panini lançar o resto, bimestralmente.

A história lembra ligeiramente uma novela mexicana...basicamente, um garoto pobre consegue uma chance de estudar numa escola para bilionários e encanta todo mundo com seu charme. Bom, na verdade, Haruhi é uma menina, mas isso nem é um detalhe relevante, né? Mais chocante do que ninguém perceber qual é o sexo do plebeu é saber que a figura conseguiu uma dívida de milhões no primeiro dia de aula, e com o grupo mais popular. Só em ficção para algo assim se transformar na melhor coisa que poderia ter acontecido.

O que eu mais gosto nessa história é que, mesmo que todos os personagens evoluam, eles ainda cometem erros. São tão humanos quanto é permitido a um desenho. Esse mangá também foi a coisa que mais me fez rir na vida, cheio de enredos com noção nenhuma, quebrando as regras da física de maneiras inimagináveis e sem se importar nem um pouco com a noção de quarta parede, fazendo os personagens conversarem entre si sobre o próprio leitor e questionar as escolhas da autora. Enquanto isso tudo acontece, você se emociona com os dramas e apertos pelos quais aqueles pobres meninos ricos passam.

Ouran Koukou Host Club
E tem xxxHOLiC, que eu reli a pouco tempo e enchi o saco no twitter com fangirlismo (acho que perdi alguns seguidores por isso). E pensar que eu nem queria ler esse...comecei só porque era preciso para entender outro que eu estava adorando, Tsubasa Reservoir Chronicle, pois as duas histórias são totalmente interligadas. Mas esse holic parecia ser tão sem graça! Um garoto forever alone que trabalhava numa loja de desejos e resolvia casos sobrenaturais? Supernatural versão Nihon? Deve ser um porre! Um capítulo mais tarde, eu já estava apaixonada pelo Watanuki e encantada pela Yuko.

Se você curte cultura japonesa, esse trabalho do Clamp é quase leitura obrigatória. Muitos clientes da Yuko tem problemas envolvendo seres e espíritos conhecidos do folclore japonês. Já outros tem preferência por conflitos originados no ocidente, como a pata do macaco (W. W. Jacobs, alguém?). E, devido a isso, há todos os fatos sobre o ser humano e ele mesmo que Watanuki aprende a cada caso que precisa resolver, e nada é, digamos, otimista. Praticamente todos os capítulos, especialmente os da primeira parte do mangá, te fazem pensar como até os melhores são incrivelmente idiotas. É preciso avisar que os personagens são tão bons que viram fonte de sofrimento para o leitor - é assim que eu sei quando uma história é realmente boa.

xxxHOLiC
Por fim, teve Paradise Kiss, um mangá curtinho que me tocou no fundo do coração. Moda é um assunto que eu não me interesso de jeito nenhum, e um dos pontos principais da história. A história também fala sobre fazer ou não o que você quer, independência, aceitação, egoísmo, sonhos perdidos, auto-aceitação, mudança de perspectiva e muitas outras coisas. Tudo isso em cinco volumes, e foi tão importante para mim que eu nunca consigo falar sobre ela como gostaria.

"É uma comédia, mas acho que eu vou chorar", Hayasaka Yukari, Paradise Kiss

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