Resenha: O Deserto dos Tártaros, ou maneiras erradas de alimentar seus sonhos

Olha só, quem diria? Estou de volta! Ou, pelo menos, pretendo continuar assim. Não sei se alguém chegou a sentir falta desse blog, sei apenas que eu senti bastante - mas só percebi recentemente. A faculdade de Letras, ao contrário do que se imagina, não é nada fácil. Lia e escrevia para provas e trabalhos que esqueci o quanto eu eu gosto de fazer isso para mim mesma. Veremos o quanto eu consigo trazer isso de volta na minha vida.  

Sem me estender muito, quero começar logo a falar do que me inspirou a escrever resenhas novamente. Foi o primeiro livro que terminei esse ano, O Deserto dos Tártaros, do italiano Dino Buzzati. É sobre a vida de Giovanni Drogo, que começa a história como um jovem partindo para o seu primeiro serviço como soldado, no Forte Bastiani. 

Na fronteira de seu país, Drogo foi para o fim do mundo que conhecia, em um local praticamente abandonado. Porém, há um incentivo nessa tarefa: a possibilidade de uma luta épica contra os bárbaros que, dizem, habitam algum lugar no fim do deserto que o forte encara. O grupo de soldados isolados sonha com a possibilidade de serem grandes a partir da sua situação triste, servirem ao país de forma heroica. Porém, existem mesmo inimigos por lá? Quem são eles mesmo? Drogo não queria ir para lá, no começo, temendo não conseguir oportunidades de voltar para um lugar mais habitado, onde poderia aproveitar sua juventude. Mas a ideia de participar de uma batalha grandiosa o deslumbra, e quando dizem que ele poderia ir para outro lugar, ele decide dar uma chance ao forte Bastiani. Vou ficar mais um tempo, quem sabe!

Esse tempo passou. Depois, passou outro, e mais alguns, e mais chance de voltar para casa e procurar outro regimento surgiu novamente. Mais uma vez Drogo escolheu a glória que teria pelo resto da vida após a batalha (contra quem mesmo?).

Agora, imagina uma pessoa que esperou tanto para seus sonhos se tornarem realidade, que ela não consegue mais se reconectar com o mundo como ele é? Drogo afinal voltou vez ou outra para a cidade de onde veio, mas a vida lá não era mais para ele. As únicas pessoas com quem ele conseguia ter um bom relacionamento eram aquelas que partilhavam de suas expectativas, e eles seguiram a vida no forte olhando para frente - apenas olhando, sempre para o mesmo deserto, na expectativa. Qualquer pontinho a mais no horizonte trazia uma onda de esperança que Drogo não conseguia evitar, mesmo sabendo que a decepção viria logo, logo. Às vezes, era preciso esconder esse desejo dos outros, muitas vezes de si mesmo. "Ah, eu sei que não vai rolar. Os bárbaros nada tem a fazer aqui." Mas era o que fazia ele levantar da cama todo santo dia, o que o levava a preferir um quarto desconfortável e irritante ao conforto da uma casa da família.

Na minha opinião, é um livro assustador. E realmente existem vários fantasmas na história: o medo de desperdiçar a juventude decido a uma força maior, seja ela o governo ou suas próprias escolhas ruins. O retrato de uma pessoa presa na teia tecida por ela mesma, feita dos seus sonhos e desejos - ela pode sair de lá, mas o trabalho para fazer a teia foi tanto que, na cabeça dela, não vale mais a pena tentar fugir. Já tô aqui mesmo há tanto tempo, vamos ver no que dá.  


É uma narrativa bem pessoal, mas que aborda muitos medos e questionamentos inerentes ao ser humano, mas certamente afeta cada leitor de maneira diferente. Eu me identifiquei demais com a situação de Drogo - seria a UERJ meu forte Bastiani? - e nada melhor como um livro da década de 40 para esfregar tudo isso na minha cara. Virou um dos meus livros favoritos da vida toda, e queria recomendar para todo mundo, ainda mais por ser um clássico meio ignorado. Porém, acho que não é para qualquer um - não por ser difícil, mas porque a temática e ambientação não é mesmo do gosto de muitos leitores. O Deserto dos Tártaros é deprimente e claustrofóbico; fácil de ler, se você só levar em conta o estilo da escrita. Já no nível, hmm, psicológico, é bem pesado, e pronto para deixar qualquer um na famosa bad. Talvez seja bom justamente por isso.

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